Filmes libertam a cabeça
R. W. Fassbinder
“Filmes libertam a cabeça”, que nomeou essa retrospectiva parcial
da obra de Rainer Werner Fassbinder, foi a maneira utilizada pelo próprio cineasta – ao escrever um artigo, em 1971, intitulado
“Imitação da Vida” – para explicitar o maravilhamento de ter encontrado nos filmes de Douglas Sirk obras que respondiam
aos ideais do que ele gostaria de fazer com seu próprio cinema.
No texto, ele diz que “os filmes de Douglas Sirk libertam a cabeça”,
e é nítido observar como seus filmes trabalham com esse mesmo
tipo de objetivo. São filmes em que personagens afáveis ou são envolvidos por maquinações cruéis da sociedade, ou ficam alienados por suas condições de vida, ou simplesmente não conseguem ver
com clareza sua real situação. Os filmes deveriam elaborar um mecanismo precioso em que o espectador – ao observar o padecimento desses personagens por quem empatizamos ao
vê-los sofrer por falta de consciência – pode ele mesmo exercitar
em sua vida as condições e as circunstâncias de sociedade
que determinam suas ações e seus desejos.
Em muitos aspectos, Fassbinder criou seus filmes a partir dos
filmes dos outros. Em 1966, um de seus curtas, O vagabundo, era estruturado a partir de uma situação de O signo do leão, primeiro
longa de Eric Rohmer. Os primeiros longas de Fassbinder, como
O amor é mais frio que a morte e Deuses da peste, são muito influenciados pela maneira como os filmes de Jean-Luc Godard
e Claude Chabrol parasitam a estrutura dos filmes policiais para
tratar de outros temas. Em 1971, vendo os filmes de Sirk, ele
descobre como o melodrama – aquele gênero que, de certa forma, mais pede adesão do espectador – pode também servir o propósito
de tornar claras as mazelas da vida social que causam o sofrimento
e a solidão das pessoas. Um misto de todas essas aprendizagens, associado a um amor por certos autores do cinema clássico – Raoul Walsh, Michael Curtiz – e uma sensibilidade definitivamente
moderna (ou seja, desmistificadora, “diagramática”, como diria Foucault). Ao fazer sua eleição de filmes e diretores preferidos
e ao incorporá-los sua estética, Fassbinder construiu, com retalho aqui, retalho acolá, um dos estilos mais singulares e exuberantes
de toda a história do cinema.



The Lubitsch Touch
O Cinema
de Ernst Lubitsch
A mostra realizada no CCBB São
Paulo trouxe filmes
das
fases germânica e americana do cineasta alemão
da primeira metade do século XX, incluindo obras restauradas
em
película e um documentário sobre sua carreira
Comédias, filmes de época e musicais. Ernst
Lubitsch deixou para
o mundo uma vasta e rica filmografia: 72 filmes,
realizados entre
1914 e 1947.
Quinze de suas obras estão na mostra The Lubitsch Touch - O Cinema
de Ernst Lubitsch, que o Centro Cultural Banco
do Brasil São Paulo
exibe entre 8
e 19 de julho, abrangendo a
fase em que morou e produziu na Alemanha,
sua terra natal,
e, posteriormente, seu período nos Estados Unidos
–
onde
fixou residência, em função do nazismo.
Na programação estão quatro filmes
em 35mm, seis em 16mm e
cinco em DVD. Os destaques são as versões
restauradas em película (35mm e 16mm) de Ana Bolena, Gatinha Selvagem,
Sapataria Pinkus, Ninotchka e Ser ou Não-Ser, além de um
fragmento de A Chama.
A curadoria é de Arndt Röskens, coordenador
do programa do Panorama, seção oficial do Festival de Berlim,
e membro do comitê
de seleção de programação
do Festival de Cinema do Rio.
(Confira programação e sinopses
abaixo.)
Destaques da programação: Ana Bolena (versão reconstruída
em cópia 35mm), Gatinha
Selvagem (versão restaurada em cópia 35mm), A
Chama - Die Flamme (fragmento restaurado em 16mm), Sapataria
Pinkus - Schuhpalast Pinkus (primeiro filme longo
realizado por
Lubitsch em 1916 - formato de exibição: 16mm), Ninotchka (grande clássico com Greta Garbo em 35mm) e
Ser ou Não
Ser (comédia anti-nazista que foi o maior sucesso
na carreira
de Lubitsch - formato de exibição: 35mm)


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Berlin Alexanderplatz é o ápice dessa obra. Não é apenas o mais perfeito e ambicioso de seus filmes: é a culminação de um processo que durou diversos anos – filmes com personagens intitulados Biberkopf, com psicologia semelhante à do personagem ou com situações dramáticas livremente adaptadas do livro de Döblin –
até que Fassbinder teve a coragem e surgiram as circunstâncias
de realizá-lo (afinal era um projeto caro, a série mais custosa da
tv alemã até então). Hoje, Berlin Alexanderplatz volta em versão restaurada, em 35mm, graças aos esforços da Fundação Fassbinder, liderada por Juliane Lorenz, montadora e companheira de Fassbinder. Pela envergadura do projeto e pela raríssima oportunidade de ver
a série exibida em película, Berlin Alexanderplatz é o grande
destaque de nossa mostra.
Outro grande destaque foi a presença de Ulli Lommel (foto) para debater com o público sobre sua carreira como ator e diretor,
e sobre sua longa amizade com Fassbinder. Tivemos também o
prazer de publicar, em primeira mão no catálogo da mostra,
o capítulo da então recém-publicada autobiografia de Ulli Lommel intitulado “Os Anos Fassbinder”, com memórias e reflexões sobre
a convivência com Fassbinder; que não apenas revelam traços da personalidade do cineasta, mas também nos permitem aproximar
de sua visão de mundo.
Nossa mostra foi completada por uma seleção de filmes significativos, porém pouco conhecidos de Fassbinder. Pois se alguns de seus filmes já podem ser vistos em DVD, outros ainda permanecem de difícil acesso e constituem verdadeiros enigmas para os cinéfilos e admiradores que desejam conhecer tudo que puderem dos filmes do cineasta. Adicionamos também uma programação complementar com filmes que influenciaram o cineasta – entre os quais filmes de Douglas Sirk e Phil Jutzi – e filmes com participação direta ou indireta, como A ternura dos lobos, de Ulli Lommel, filmado com toda a trupe Fassbinder e com a produção do próprio, e Gotas d’água em pedras escaldantes, filme de François Ozon a partir de uma peça de teatro escrita por Fassbinder. Com isso, pretendemos mostrar que a obra de Fassbinder pode começar com os filmes – e ter nos filmes seu elemento mais deslumbrante –, mas que também está em tudo aquilo que se deixou influenciar por ela. E que está, também, na liberdade criada pela cabeça de cada um dos espectadores que assistiu a algum filme de Fassbinder e incorporou alguma forma de sabedoria transmitida pelo filme em sua vida.
Acesse também o site da mostra
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No Crepúsculo de Winnipeg
o cinema de Guy Maddin
Um talento desconhecido por muitos, Guy Maddin (foto) vem construindo
uma obra ímpar, com alguns momentos particularmente brilhantes.
Seus filmes, realizados a partir de roteiros mirabolantes, são
fruto da rara mistura de muitos elementos autobiográficos e do universo
do cinema mudo, nostálgico, romântico; com uma estética híbrida, muitas
vezes propositalmente brega e sempre regidos por uma boa dose de
humor negro e diversas esquisitices.
Isolado em sua cidade, Winnepeg, no Canadá, Guy, nunca tendo recebido
educação formal em artes, começou a filmar na década
de 1980 e
continua
até hoje trabalhando de forma bastante independente. Cinéfilo
assumido, suas obras são inspiradas na cinematografia de diversos diretores
como
Abel Gance, Buñuel e Murnau. Inevitavelmente, Guy
guarda também muitas comparações. Mas a própria heterogeneidade
das comparações (de David Lynch,
Carl Dreyer a JosephVon Sternberg)
revela umpouco a
singularidade de sua obra.
A criação do estilo técnico e narrativo próprio de Guy agregou-se
à história
do cinema, hoje críticos do mundo inteiro referem-se
ao uso intenso
e rico da trilha sonora angustiante, às imagens
pretas e brancas
desfocadas e aos respingos dos coloridos
kitsch, como maddinian...
Toda a cinematografia é repleta de visceralidade com imagens que muitas
vezes chegama intoxicar. Seu chef-d’ouvre, o curta-metragem
O coração
do mundo (melhor filme do festival doToronto de 2000), sua versão
musical esplendorosa do Drácula de Bram Stoker, Drácula: páginas do
diário de uma virgem, o surrealista A música mais triste do mundo são
apenas alguns bons exemplos de obras oriundas de
uma criatividade e
ousadia que atravessam as fronteiras
do cinema contemporâneo.
Trazer os filmes de Guy, em sua maioria inéditos no Brasil, e apresentá-los
a uma plateia que esteja aberta a recebê-los, foi um imenso prazer.
Com a certeza de que este fabulista – que cria a cada filme um universo
especialmente estranho e de forma especialmente única – pode trazer
muitas inspirações ao público da mostra.
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A FASE NA ALEMANHA
Nascido em Berlim, em 1892, Ernst Lubitsch começou a sua carreira
como ator, ainda na época da Alemanha Imperial, em comédias
ligeiras passadas no meio pequeno-burguês, interpretando tipos cômicos
burlescos judeus. Sapataria Pinkus (Schuhpalast Pinkus, 1916), o primeiro
média-metragem realizado por Lubitsch como diretor,
e Não
Quero Ser um Homem (1918) são as duas comédias burlescas
presentes na mostra do CCBB. Também em 1918 o realizador fez sucesso
com um filme dramático, Os Olhos da Múmia,
que iniciou
a carreira da grande estrela do cinema mudo, Póla Negri.
Enquanto os grandes diretores alemães da época
se dirigiram ao expressionismo alemão ou a filmes políticos,
Lubitsch alternou entre
comédias e grandes produções de dramas históricos.
Entre 1918 e 1922, os filmes realizados em seu país
de origem antecipavam elementos das comédias sofisticadas que fundaram
sua fama em Hollywood, nos anos 30. Elas brincam com a realidade
de uma
maneira satírica, brincam com papeis masculinos e femininos, com
identidades sexuais e com o erotismo. O público do CCBB confere
os filmes A Princesa das Ostras, de 1919, e As Filhas de Kohlhiesel
de
1920, ambos exibidos em 16mm. Gatinha Selvagem (1921),
com Póla
Negri, é um dos destaques da mostra, exibido na
versão restaurada
em película 35mm.
A obra de Lubitsch está marcada, ainda, por filmes
de época: Carmen,
Madame Dubarry e Ana Bolena. A Chama (Die Flamme, 1922) marca o fim
da fase alemã. Rodado em 1922, Lubitsch descreveu o filme, junto
com Der Rausch, como a realização mais completa das produções
alemães que fez.
Os americanos descreveram a estética deste trabalho como “Art
Noveau cinematográfico”. O filme não foi conservado
e hoje existe somente um fragmento de 43 minutos,
que, como uma raridade,
completa a parte alemã
da mostra
e será exibido em formato 16mm.
OS ANOS NA AMÉRICA
Em 1923, Lubitsch viajou para os EUA para fazer Rosita. Mudou-se para
Los Angeles e, desde então, continuou a sua carreira com produções
americanas. Em 1935, a Alemanha nazista o privou da sua cidadania alemã,
fato que o levou a tornar-se cidadão americano, em 1936 - desde
que os nazistas chegaram ao poder na Alemanha, em 1933, Lubitsch nunca
mais retornou
para a sua terra natal.
Com a chegada do som, no início dos anos 30,
o realizador se dirigiu ao novo gênero emergente no cinema, o musical.
Seu primeiro filme falado foi o musical Alvorada do Amor (The Love Parade),
em 1929,
e depois ainda realizou alguns outros musicais, entre eles Uma
hora contigo e o clássico A viúva alegre, de 1934, que fez
parte da mostra com uma cópia em 16mm. O filme foi famoso por sua
mistura de Art Decó, Bauhaus e Neue Sachlichkeit (para o quarto
branco da viúva, Lubitsch usou 16 tons diferentes da cor).
No período americano o realizador continuou
a especializar-se
em comédias sofisticadas que, muito mais que
todos os seus
trabalhos anteriores, marcaram sua carreira e reputação
na história cinematográfica. Ele realizou
os grandes sucessos Ninotchka, com Greta Garbo, escrito por Billy Wilder,
e a comédia anti-nazista
Ser ou não ser - ambos presentes
na mostra,
em película 35mm.
Referências até hoje, as comédias
sofisticadas de Lubitsch destilavam uma sutil ironia em relação
a temas polêmicos, do sexo à política.
Seu estilo
único
e próprio começou a ser chamado de the Lubitsch touch. Este
‘toque Lubitsch’ implica uma brincadeira com as regras rígidas
da censura e moral nos EUA da época, construindo situações
engenhosas de duplo sentido com uma boa e maliciosa sexualidade: mostra
pouco e insinua muito, e olha atentamente
para situações inusitadas e para as inevitáveis fraquezas
humanas.
Três comédias menos conhecidas também
estão no programa: Angel (1937) com Marlene Dietrich como atriz
principal, A Oitava Esposa do Barba Azul (1938), e O pecado de Cluny Brown (1946), último filme que Lubitsch completou na íntegra.
Em 1947, ano em que veio a falecer, o cineasta
recebeu o Oscar honorário. A mostra do CCBB foi completada com um documentário
sobre o cineasta, Ernst Lubitsch em Berlim, dirigido por Robert Fischer
(2006).
“As lendárias elipses do roteiro só
funcionam porque nosso riso
cria a ponte entre uma cena e a próxima”,
afirmou certa vez François Truffaut. Essas elipses do roteiro permitiram
que, concluído na imaginação do espectador,
ele podia brincar com situações (eroticamente) ousadas sem
parecer vulgar,
o que os críticos americanos chamaram de ‘naughty, but nice’
(safado, porém simpático). O toque Lubitsch implicou também
um princípio de esperança - até mesmo em situações
que parecem sem saída ele enxergava algo leve.
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